Não perca tempo com Maçonaria!
ONDE NASCE A MOTIVAÇÃO ?
Quando iniciamos nossa caminhada na Arte Real, nos deparamos com uma questão que será o pilar de sustentação de todo o percurso até que as portas do Oriente Eterno se abram para nós, qual seja: Que vindes fazer aqui?
Importante salientar que, se temos a oportunidade de nos
questionarmos desta forma, é um sinal de que estamos em um estágio já mais
privilegiado da sociedade.
Segundo Maslow e sua famosa pirâmide (Figura 01), todos temos
uma hierarquia de necessidades a atender. Primeiramente as necessidades mais
imediatas são as fisiológicas por questões óbvias. São aquelas que, se não
atendidas, nos levam rapidamente a óbito. Dentre elas estão a alimentação.
Atendidas estas estamos em condições de buscar segurança para
nós e para aqueles que nos são caros. Isto implica em moradia digna, por
exemplo.
Figura 01 – Pirâmide de Maslow
A partir do momento em que temos onde comer e morar com
segurança, vem-nos a necessidade de pertencimento e aí está o patamar da
“Afiliação”. O Homem, enquanto animal
político e social, sente a necessidade de integrar um grupo no qual se sinta
aceito e onde possa interagir. Daí vem a busca por grupos de estudo, religiões,
partidos políticos, associações etc.
Integrando uma coletividade e como parte desta aceitação ele
precisa ser bem-quisto. A sensação de que se é bem-vindo por boa parte ou a
maioria de um grupo é, sem dúvida, agradável. Por vezes um indivíduo conquista
uma posição de liderança ou destaque em um grupo, mas não necessariamente a
estima deste grupo. Há um algo a mais, uma espécie de tempero das relações e
que nos faz sentir o verdadeiro significado da expressão “Calor Humano”.
Particularmente aposto em dois elementos principais: empatia
e altruísmo.
A empatia aproxima os corações, ombreia os
sentimentos, nos faz chegar o mais próximo possível de “calçar o sapato do
outro”. É um irmanar-se nas alegrias e tristezas, uma fraternal solidariedade e
boa vontade na tentativa de olhar o mundo por outros olhos e compreender visões
deste mundo e seus sentimentos intrínsecos.
O altruísmo nos move a trabalharmos pelo bem do outro
e da nossa coletividade. É aquela sensação boa e aconchegante que sentimos
quando ajudamos, de alguma forma, direta ou indiretamente, uma pessoa ou grupo
de pessoas.
No topo desta pirâmide que, lembramos, é apenas um modelo não
representando a verdade absoluta, está a autorrealização que, sem
dúvida, é um conceito altamente variável entre as pessoas, mas que parece
envolver a descoberta de um sentido para o existir, ou seja, a motivação
pessoal para a vida, aquela chama que nos move ou, em simbologia que nos é mais
familiar, aquela estrela que arde e brilha.
Esta busca, genuinamente, não é da Verdade, pois, é altamente
questionável se há uma Verdade última. Esta busca é de tranquilidade de alma, serenidade no caminhar pela vida. É a busca de
eliminarmos as angústias e dúvidas que, eventualmente, podem afligir nossas
mentes naquelas tardes quentes e chuvosas de domingo ou em qualquer momento em
que nos perguntamos: “Que vindes fazer aqui?”.
Isto posto fica claro e justificado que, ao nos fazermos este
questionamento, já escalamos vários degraus da citada pirâmide. Claro também
deve ser que seus patamares não são estanques na vida real. Eles se mesclam e
interpenetram e cada um sabe onde está nesta classificação apontada por esta
abstração do pensamento.
Imaginem um pai de família, com um envelope de currículos embaixo
do braço, percorrendo, angustiado, inúmeras empresas, em busca de seu sustento
e lembrando de sua família para a qual precisa prover sustento. Imagine se este
pai irá, geralmente, fazer-se este tipo de questionamento. Ou se seu
questionamento e todas as suas energias e pensamentos não estarão voltados para
a solução de seus problemas fundamentais, postados na base da pirâmide.
Então, meus Irmãos, para que o Trabalho Maçônico se realize,
para que tenhamos realmente motivação e orgulho de fazermos parte desta
Fraternidade; para que possamos visualizar sentido na prática maçônica; para
que a sociedade sinta os efeitos deste trabalho e, consequentemente, nós
tenhamos também o sentimento acolhedor do dever cumprido; para que nossa Loja
seja uma Escola e Eternos e Verdadeiros Aprendizes e, ao mesmo tempo, uma forja
de Construtores Sociais, tomamos a liberdade e a ousadia de convida-los a esta
reflexão: Onde nasce a sua motivação? Onde ela se realimenta? Como manter a
chama acesa e fulgurante?
Permitam-me compartilhar com os Irmãos a reflexão que me vem
sobre estas fundamentais questões.
Primeiramente precisamos mirar o espelho do autoconhecimento
e, com sinceridade profunda, nos perguntarmos: o que vim buscar na Maçonaria
quando aqui iniciei? Encontrei o que procurava? Tive minhas expectativas
atendidas? Se não, o que falta? Falta em mim? Ou falta fora de mim?
Posso, a partir de agora, voltar a buscar meus objetivos com
energia? A minha Loja é um ambiente propício para esta busca? Se não, pode vir
a ser? No que meus Irmãos podem me ajudar nesta busca e nesta reconciliação com
minhas convicções e anseios? No que eu posso ajudá-los também?
Talvez este seja o primeiro passo. Conversa franca, aberta,
despida de vaidades ou temores. Para sermos confiáveis, precisamos confiar.
Vale a pena confiar no próximo. Certamente teremos uma ou outra decepção, mas a
confiança chama confiança e, sem dúvida, o número de vezes que o investimento
no outro trará positividade é muito grande.
Se conseguimos uma necessária paz de espírito e mantemos
nossa estrela brilhante, isto surtirá efeitos, mais cedo ou mais tarde, em nossa
Oficina, a Boa Vontade é contagiante e, pelo exemplo e perseverança, corações e
mentes irão se aproximar, verdadeiramente se irmanar e a Loja começa a ganhar
uma identidade coletiva que lhe permitirá também, em conjunto, fazer a mesma
reflexão: Que vim fazer aqui?
A partir daí, ou seja, quando a Loja, coletivamente,
visualiza um Objetivo claro, o seu papel na sociedade que se insere também se
clarifica e as energias começam a serem canalizadas para um mesmo horizonte. O
ideal Maçônico de “Tornar Feliz a Humanidade” começa a ficar nítido nas mentes
dos Irmãos e isto gera mais e mais energia e sentido para a Prática Maçônica.
Por fim, uma sociedade melhor fará com que o Irmão tenha mais e mais bem-estar pessoal e o círculo virtuoso se fecha e se realimenta.
Juntos somos mais.
Que o Grande Arquiteto do Universo a todos ilumine, meus Irmãos.
RITO SÃO JOÃO - Da Hungria para o Brasil
O trabalho dos Irmãos Eugene
Laxa e Will Read, publicado em 1978, no Volume 90 da Ars Quatuor Coronatorum, sob o título “THE DRASKOVIC OBSERVANCE – Eighteenth Century Freemasonry in Croatia”,
nos apresenta um rico e esclarecedor panorama sobre as circunstâncias que
levaram à criação do Rito São João na Hungria. Nele os autores ilustram a sua
ancestralidade fundamentada na Observância criada pelo Conde, Militar e Maçom
Ivan Draskovic.
A própria Grande Loja Simbólica da Hungria afirma, em seu sitio na Internet, que a Observância Draskovic foi a
única obediência Maçônica genuinamente Húngara.
No entanto, pelo banimento
da Ordem dos Territórios Húngaros por sete décadas e pela perseguição da
Maçonaria por regimes totalitários que se sucederam na região, muitos
documentos se perderam, foram destruídos ou ainda não foram localizados. Isto
dificulta o entendimento de como se deu a transição da Observância Draskovic
para o Rito São João.
A Primeira Loja a praticar
este Rito no Brasil foi a Loja Resurrectio – nº 99, fundada em 1956, pertencente
à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP) e é sobre esta saga de coragem e amor pela prática da Arte Real que tecemos estas considerações.
UMA
HISTÓRIA DE RENASCIMENTO
O ano de 1956 foi
especialmente turbulento para a população Húngara. Eclodia a revolta contra a
ditadura do Governo Soviético que ocupava o país desde o final da 2ª Guerra
Mundial.
A União Soviética reprimiu
esta revolução com mão de ferro, resultando na morte de mais de 2.500 soldados
Húngaros, 700 soldados soviéticos e na fuga de centenas de milhares de cidadãos
húngaros, abandonando suas histórias e seus bens na busca de sobrevivência em
outros recantos do mundo.
Muitos deles vieram para o
Brasil onde encontraram uma nação em franco crescimento econômico, industrial e
repleta de oportunidades para reconstrução de suas vidas destroçadas pela
violência da guerra.
Já no início da década de
1950 cidadãos de origem Húngara (dentre eles vários Maçons) se reuniam em São
Paulo, no chamado Círculo Húngaro, para estudos e debates dos temas relevantes
da sociedade.
Eis que surge, em um jornal
de língua Alemã, o seguinte anúncio:
“Homens
livres e de bons costumes querem entrar em contato com outros homens livres e
de bons costumes”
Um dos membros do Círculo
Húngaro atendeu ao chamado e, destes contatos, nasceu a Loja Humanitas, em
1952, sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil (GOB), porém funcionando sob o
Rito Schroder, em língua Alemã.
Figura 1 – Recorte de notícia do Jornal O Estado
de São Paulo - 04/11/1956
Com a chegada dos refugiados,
em 1956, e natural aumento da colônia Húngara em São Paulo, surgiu a vontade de
se fundar uma Loja de Húngaros, mas o pedido foi negado pelo GOB.
Os Irmãos então procuraram a
GLESP, foram acolhidos pelo então Grão Mestre Francisco Rorato e, no dia 06 de
dezembro daquele mesmo ano, oito Irmãos fundaram a Loja Ressurectio – nº 99, finalmente trabalhando sob o Rito São João.
Os Rituais chegaram escondidos ao Brasil, pelos Irmãos que haviam sido iniciados na Hungria, em forma de filmes e foram rodados em mimeógrafos.
Até 1983, só se iniciava
nesta Loja quem falasse Húngaro, pois os rituais estavam todos escritos naquele
idioma.
Com o natural envelhecimento
dos membros da Loja, ficou clara a necessidade de se ampliar o escopo de potenciais
iniciados e os rituais foram traduzidos para o Português, facilitando assim a
recepção de candidatos brasileiros.
Os Rituais originais estão
atualmente expostos no Museu da GLESP.
Por mais de 50 anos esta
Loja foi a única a praticar o Rito e apenas em 2009 a segunda Loja foi fundada
no Brasil.
Atualmente a GLESP possui cerca de 890 Lojas e destas, apenas 09 lojas simbólicas praticam o Rito São João e também a
Loja de Pesquisa Quatuor Coronati São Paulo 333, sendo a única Obediência
Maçônica Brasileira a praticar este Rito.
Figura 2 - Estandarte da Loja Resurrectio - nº 99. Em volta pode-se ver o nome das Lojas de Origem dos Irmãos Fundadores.
SOBRE O RITO
O Rito São João conserva a
sua simplicidade e muitas características de suas origens militares e
iluministas do século XVIII.
Esta simplicidade e
objetividade original do Rito pode ser facilmente constatada pelo exame do
trecho final do citado trabalho dos Irmãos Laxa e Read, onde eles resgatam o próprio
texto do Ritual praticado pelo Irmão Draskovic.
A decoração de uma Loja de
São João é bastante simples e, a exemplo do Rito Schroder, toda a simbologia
dos trabalhos encontra-se sintetizada no Tapete Ritualístico, também chamado de
Tapis, ladeado por três castiçais
altos.
É simples entendermos a
função originária deste tapete.
Muitas Lojas fundadas pelo Conde Draskovic funcionavam nas fronteiras pois seus integrantes eram militares que, não raro, estavam em conflito e precisavam se deslocar rapidamente.
Isto
posto, para “desmontar” uma Loja, praticamente era necessário apenas recolher o
Tapete e alguns poucos objetos ritualísticos.
Tanto Draskovic como
Schroeder eram “dissidentes” da Estrita Observância Templária e formularam seus
próprios Rituais e, por isso, costumamos dizer que os Ritos São João e
Schroeder são Primos-Irmãos, pois têm uma raiz comum e muitas semelhanças na
dinâmica dos trabalhos.
A influência Iluminista
também é marcante pois o Rito São João possui uma ritualística mais simples e
objetiva, sem influências místicas ou esotéricas e focado no estudo no
crescimento intelectual de seus membros.
Esta liturgia mais concisa
permite um maior aproveitamento do tempo para discussões sobre Cultura Geral e
Maçônica. Salvo raríssimas exceções, em todas as reuniões há apresentação de
trabalhos e estudos, seguidos de edificantes debates sobre temas voltados para
o aperfeiçoamento do homem e da sociedade.
Isto faz parte do conceito
de Formação Permanente do Maçom e da premissa de que o homem só pode evoluir pelo
exercício de suas capacidades intelectuais garantindo a dignidade da existência
humana na vida terrestre.
Parafraseando Kant: É o homem libertando-se de sua menoridade
intelectual e ousando buscar o conhecimento por seus próprios esforços, sem
depender de forças metafísicas ou de um determinismo divino.
O Irmão Aleksandar Jovanovic
cita a socióloga britânica Margaret Jacob, numa de suas obras sobre o
Iluminismo:
“Durante
o século 18, as Lojas maçônicas conseguiram transformar os ideais filosóficos
do Iluminismo em comportamento individual. A busca da perfeição humana para os
maçons transformou-se em racionalidade, tolerância, sociabilidade e
comportamento ético. ”
Segundo o documento Systema
Constitutionis Latomiœ Libertatis sub corona Hungariœ, in Provinciam redactœ
(Conjunto das Constituições dos Pedreiros Livres, redigido na província, sob a
proteção da coroa da Hungria), escrito por Draskovic em 1775 e só recentemente
descoberto, nossa Ordem teria originalmente sete graus.
No entanto, quando adotado
oficialmente pela Grande loja Simbólica da Hungria, ele já constava apenas com os
três graus simbólicos, não reconhecendo os altos graus. Mais uma transição que
ainda está por ser explicada.
Esta é outra similaridade
com o Rito Schroder, pois, alinhados com o pensamento dos fundadores da
Primeira Grande Loja (também chamados de Modernos), defendiam que a profusão
de graus posteriores ao de Mestre não integrava a Maçonaria Primitiva e Original
prestando-se apenas a conferir nobreza e atrair as classes mais abastadas,
fascinadas pela perspectiva de uma ligação com as Ordens de Cavalaria e seus títulos.
Sua simplicidade originária
reflete-se também no fato de não possuírem, tradicionalmente, a figura destacada do Mestre
Instalado. No entanto, por força de adequação ao Regimento Interno da GLESP,
adaptações foram necessárias a fim de que os Veneráveis, ao serem eleitos,
pudessem passar pela cerimônia da Instalação.
No Rito Escocês Antigo e
Aceito os Mestres Instalados sentam-se no chamado “Oriente”, local da Loja,
próximo ao trono do Venerável Mestre e separado do "Ocidente" por uma pequena
balaustrada.
Pois bem. Na configuração de
uma Loja do Rito São João não existe tal balaustrada e, por consequência, não
existe Oriente fisicamente delimitado, o que é mais um argumento favorável à
simplicidade e humildade fomentada pela prática deste Rito e a valorização da igualdade fraternal em Loja.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A História do Rito São João
e sua acolhida pelos Brasileiros são demonstrações do poder da perseverança
sobre as adversidades. Um testemunho vivo do genuíno Espírito Fraternal
Maçônico e a sua vontade férrea de fazer valer a liberdade humana.
Esta singela peça de arquitetura tem o objetivo de render homenagem a todos os Irmãos que, desde a luta pela vida, no teatro beligerante da revolução Húngara até o brilhante renascimento do Rito em solo Paulista, deixaram suas marcas na História como verdadeiros defensores das tradições, da liberdade e das Luzes da Razão em nosso solo pátrio.
Não existe Rito melhor ou
pior. Existe o rito mais ou menos harmônico com as convicções e perfis dos
Maçons. A Maçonaria é generosa nos múltiplos caminhos que oferece aos que a
procuram seja buscando uma prática mais metafísica, seja sob um viés mais
racionalista, pois a base, o alicerce é a melhora do homem para melhora da
humanidade.
Definitivamente o Rito São
João é adequado aos que desejam praticar uma Maçonaria centrada no Potencial
Humano de aprimorar sua moral, sua cultura, sua atuação social e de buscarem a
Verdade por seus próprios méritos, com o natural respeito à força maior
Criadora deste universo, mas libertos de quaisquer dogmas ou afirmações que não
sejam sedimentadas na liberdade de pensamento e questionamento, ingredientes fundamentais,
principalmente, para a prática do trabalho maçônico sob o aspecto
investigativo.
Bibliografia Consultada:
DENES , P., & JOVANOVIC, A. (2006). CONSTÂNCIA NO TRABALHO – Edição
Comemorativa dos 50 Anos da ARLS Resurrectio – nº 99. SÃO PAULO: GLESP
GOULD. R.F. – HISTÓRIA
CONCISA DA MAÇONARIA – VOLUME III. Tradução José Filardo.
GRANDE LOJA SIMBÓLICA DA HUNGRIA. OS PRIMEIROS PASSOS NA HISTÓRIA DA MAÇONARIA MODERNA. https://www.szabadkomuves.hu/a-modern-szabadkomuvesseg-tortenetenek-elso-lepcsoi/ Consulta realizada em 13/09/2020.
LAXA,E., & READ,W. (1978). THE DRASKOVIC OBSERVANCE – Eighteenth Century Freemasonry in Croatia. ARS
QUATUOR CORONATORUM – VOLUME 90.
GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO
ESTADO DE SÃO PAULO (2014). RITO SÃO
JOÃO – Ritual do Primeiro Grau (Aprendiz Maçom) e Rituais Especiais. SÃO
PAULO: GLESP
Uma Iniciação Mitológica e Filosófica
Caríssimos Irmãos
![]() |
Sócrates - 469 a 399 a.C. |
FRATERNIDADE X LEGALIDADE
Uma convivência possível
Um dos solenes compromissos que juramos honrar quando do ingresso nas fileiras desta Augusta e Respeitável Ordem é o de obediência à legislação Maçônica e as Leis do nosso Grande País.
Outro fundamental compromisso é o de auxiliar nossos Irmãos naquilo que for justo.
Dentre tantas obrigações assumidas por um verdadeiro iniciado, estes citados compromissos por vezes parecem se mostrar conflitantes nos corações e mentes de alguns Irmãos.
Na sociedade profana é lugar comum o estereótipo da Maçonaria como uma sociedade de auxílio mútuo irrestrito. Somos muitas vezes tomados por um grupo que acoberta as próprias falhas e procura atenuar as suas conseqüências e isto, além de inaceitável, mostra-se bastante pernicioso para a imagem da Ordem.
É uma "pintura" de nossa Fraternidade que precisa ser apagada e redesenhada com as verdadeiras e nobres matizes, dignas da Arte Real que praticamos.
No entanto, antes de nos empenharmos em aprimorar nossa imagem na sociedade profana, há que se pacificar alguns posicionamentos observados no seio de nossas Oficinas.
Não é raro observarmos um equivoco ou mesmo um conflito entre a necessidade de se fazer cumprir a lei e a falsa ideia de que isto pode se chocar com o sentimento de fraternidade.
Convido os queridos Irmãos a fazerem um exame de consciência e se questionarem por quantas vezes, desde que foram iniciados, voltaram a folhear as páginas de nossa Carta Magna e dos Regulamentos que regem o comportamento em Loja (e fora dela)?
Quantos, ou por desinformação ou mesmo por simples conforto pessoal, imaginam equivocadamente que o “oráculo” das normas é apenas o Irmão Orador? Certamente que este é o Oficial responsável por orientar seus Irmãos, mas não deve ser o único a debruçar-se sobre os textos legais.
Conhecimento implica liberdade, meus Irmãos!
“Conheceis a Verdade e ela vos libertará”, já dizia o Iluminado Mestre de Nazaré. E o estudo e meditação sobre a necessidade do cumprimento de nossas regras passa, necessariamente, por alguns princípios basilares do convívio em qualquer agrupamento humano.
Estarão sendo, nossos Aprendizes, suficientemente informados sobre a importância de se conhecer o Direito Maçônico? Estarão nossos Mestres cônscios de que a Fraternidade legítima não é, em absoluto, obstáculo para a aplicação da lei? São questões que, no nosso modesto entendimento, devem ocupar a mente de um Maçom minimamente comprometido com o teor do seu juramento iniciático.
Legislar não é tarefa trivial, meus Irmãos! Mas um agrupamento social não se perpetua sem regras. E ter ciência destas regras é condição sine qua non para cumpri-las.
Segundo nosso Irmão Albert Pike...
“A FORÇA das pessoas, ou a vontade popular, em ação e manifesta, simbolizada pelo MALHETE, regulada e guiada por e agindo dentro dos limites da LEI e da ORDEM, simbolizada pela RÉGUA DE VINTE E QUATRO POLEGADAS, tem como seu fruto LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE: liberdade regulada pela lei; igualdade de direitos à vista da lei; irmandade, com seus deveres e obrigações assim como com os seus benefícios.” [1]
Já Platão, em sua cidade-estado idealizada da clássica obra “A República” cita as quatro virtudes cardinais, quais sejam: a Força, a Coragem, a Temperança e a Justiça, preconizando também o princípio da Unidade das Virtudes, ou seja, que estas virtudes são indissociáveis, não podendo o homem ser portador apenas de uma delas.
Fazendo um paralelo com a filosofia de nossa Ordem, de nada adiantaria a Força sem um cinzel habilidoso e um sábio direcionamento. Tampouco a beleza sedimentada em fracas bases ou mesmo a sabedoria sem um veículo enérgico e ao mesmo tempo harmônico de manifestação.
Em suma, a aplicação da Justiça a terceiros implica a Força e a Coragem de enfrentá-la também numa eventual situação de réu e, com o auxílio da Temperança, estar pronto a enfrentar as conseqüências dos próprios atos.
Igualmente o cumprimento da legislação, firmado em juramento, em nada afeta a verdadeira fraternidade, pois, via de regra, duas possibilidades bastante distintas se afiguram:
Uma, no caso do Maçom que se mantêm entre as duas paralelas que tangenciam o ponto dentro do círculo, poderoso símbolo retratado em nossos painéis, ou seja, que se esmera na trilha do caminho reto e que, por esta postura, dificilmente será alcançado por penalidades administrativas ou mesmo pelo braço forte da Justiça Maçônica.
Outra, no caso do Irmão que, por quaisquer razões ou contingências, transgride alguma das regras de conduta Maçônica (ou até mesmo profana). Não sendo ele usuário do simbólico “Anel de Giges”, este expressivo mito platônico, buscará a reparação para o seu deslize sejam quais forem as conseqüências.
Certamente estamos todos passíveis de errar e a grandeza de caráter reside justamente no enfrentamento das conseqüências do erro e no aprendizado dele decorrente. Ademais nenhum rancor ou mágoa deve ser direcionado a um Irmão investido do papel de fazer cumprir a legislação conquanto, nesta condição, simplesmente faz valer seu compromisso para com a Ordem e, quando me refiro ao termo “Ordem” é na sua concepção o mais universalista e menos provinciana possível.
Com o decorrer do tempo é absolutamente natural que a interação entre os Irmãos de uma mesma Oficina fortaleça os laços da Irmandade e o real sentido de nos reconhecermos como Irmãos salta aos olhos. Mas uma questão precisa ser destacada:
Que verdadeiro Maçom deixaria seu Irmão em uma situação difícil ou constrangedora? Antes não seria mais louvável aliviar o seu coração e estimulá-lo a cumprir seu dever mesmo em detrimento de si próprio? Estamos prontos para assumir realmente as conseqüências de nossas ações e omissões? Estamos realmente preparados, fortes, encorajados e com a necessária temperança para subjugar nossa tendência à autodefesa irrestrita e glorificar a aplicação da justiça mesmo que sua espada esteja sobre nossas cabeças?
Ou continuaremos (perdoem-me a generalização) com a tendência de lançar mão da malfadada frase, símbolo não da tolerância, mas da permissividade:
“Aos amigos tudo e aos inimigos a lei” ?
Agradeço imensamente a atenção dos Irmãos e a oportunidade de partilhar estas reflexões.
Que o G:.A:.D:.U:. a todos ilumine e guarde em nossa caminhada.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
[1] - PIKE, ALBERT – MORAL E DOGMA DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO DA MAÇONARIA – GRAUS SIMBÓLICOS, Livraria Maçônica Paulo Fuchs – São Paulo – SP.
[2] – FELLINI, JULIANO – O ANEL DE GIGES: VIRTUDE E VISIBILIDADE. http://www.espacoacademico.com.br/096/96fellini.htm
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Mario Vasconcelos
- Mario Vasconcelos
- Brazil
- Ouse buscar o conhecimento pelos seus próprios meios. Duvide. Questione sempre. Você será o único a desfrutar (ou sofrer) quando descobrir sua própria verdade.




