SEMENTES DA RAZÃO - A Saga Simbólica de um Pedreiro Livre




A obra Sementes da Razão não é apenas um romance. É um tecido de simbologia a ser desvendado a cada parágrafo. Não é a toa que a definimos como a Saga Simbólica de Pedreiros Livres. 

A todo estudioso de pensamento livre e de bons costumes, ou seja, que busca erigir seu Templo pessoal esta obra tem muito a oferecer. Ao longo de sua envolvente trama somos levados a ponderar sobre o poder de três grandes forças do mundo: A Fé, a Razão e o Destino.

Qual delas define o caminho do homem sobre a Terra? Ou seria enfim uma conjugação harmônica desta tríade? Tire suas próprias conclusões. 

O Irmão Celso Abrahão, nesta magnífica obra, nos leva a trilhar o caminho de um Pedreiro Livre e acompanhar suas escolhas e, principalmente, as consequências destas.

Vale salientar que, por força da meticulosa e dedicada pesquisa a que se debruçou o autor, encontramos, ao longo do texto, não apenas ficção sedimentada em inteligentes e bem colocadas construções simbólicas, mas conhecimento. Detalhes históricos e peculiaridades geográficas ou estudados ou mesmo vivenciados in loco pelo autor.

Exemplificando, a grande falésia de Beach Head, locação de uma das passagens do primeiro capítulo, não só existe na Inglaterra, como é um local onde, com muita frequência, infelizmente, pessoas tiram a própria vida.


Falésia de Beach Head - Inglaterra

A própria imersão do autor na belíssima Catedral de Notre Dame de Reims é a prova máxima da quase indissociável composição entre ficção e realidade, realizada com Maestria pelo Irmão Celso Abrahão.

Catedral de Notre Dame de Reims

Mas não desejo me aprofundar mais em detalhes deste livro singular sob o risco de antecipar informações e privar os Irmãos e Amigos da degustação deste passeio literário.

Isto posto, recomendo fortemente a leitura deste romance que tanto satisfaz ao leitor não iniciado na Arte Real como ao membros de nossa Ordem. Certamente que estes terão mais condições de perceber as mensagens ocultas nas entrelinhas e interpretar os significados à luz de suas próprias convicções e bagagem cognitiva e Maçônica.

Caso enxerguem valor neste conteúdo e desejem acompanhar a narração dos capítulos, inscreva-se no Canal Universo Numérico (link abaixo).

Abaixo compartilhamos também os títulos dos capítulos da obra e o link para cada um deles, à medida em que forem sendo publicados.

Desejo-lhes uma boa leitura/audição, meus Irmãos. No final deste artigo há também o link para compra do livro físico (bela edição em capa dura) caso seja do vosso interesse.


A IRRESISTÍVEL E VELOZ VONTADE DE JULGAR



 


Para interagirmos com este mundo em que vivemos, nos fazemos valer de nossos sentidos e é impressionante como estes sentidos nos iludem, ou seja, a mesma informação chega para dois ou mais receptores de formas diferentes.

Se entrevistarmos duas testemunhas de um mesmo acidente é muito provável que cada um o descreva de modo diverso. E isto ocorre por múltiplos fatores, a base cognitiva (somos portadores de mananciais diversos de conhecimento), a acurácia destes sentidos (uns enxergam, ou vem ou sentem melhor ou pior), formação cultural e seus respectivos valores, enfim, há uma enormidade de fatores que entram nesta equação.

Isto posto, se não temos absoluta certeza de como o mundo nos chega aos sentidos, imaginem tentar enxergar pelos olhos de terceiros!

Quando avaliamos a ação de uma pessoa estamos (inconscientemente) tentando "calçar o sapato" do outro para perceber onde lhe doem os calos. Mas convenhamos que trata-se de uma tarefa que beira o impossível.

Por isso, nós que (em tese) fomos instruídos ao longo desta maravilhosa estrada da Arte Real, temos a obrigação de, minimamente, tentar compreender e acolher, antes de julgar e condenar.

Mas, infelizmente, esta não é uma preocupação generalizada.

Com rapidez vemos dedos em riste se erguendo para apontar este ou aquele comportamento de Irmãos em nossas Oficinas. Facilmente se ouve: "O Irmão X não vem mais à Loja!", "O irmão Y não se compromete!", O Irmão Z está com suas mensalidades em atraso!".

É fato que a legislação está aí, disponível para ser usada (desde que conhecida). É um outro problema a conveniência de deixar estes conhecimentos somente sob a responsabilidade dos titulares dos cargos (mas esse tema é para outro momento).

Mais que Igualdade, a sabedoria que vem do alto carece de aplicar um tratamento equânime. Nas palavras de Aristóteles:

"Tratar iguais de forma igual e desiguais de forma desigual na medida de suas desigualdades"

A figura abaixo ilustra perfeitamente a grande diferença entre estes conceitos que, não raro, são confundidos pelo senso comum.


Os Irmãos poderiam, com propriedade, alegar que a igualdade consta de nossa famosa tríade, mas eu tomo a liberdade de lembrá-los que esta não é a única tríade utilizada em nossa universal fraternidade. Por exemplo a tríade de origem anglo-saxã é "Amor Fraternal, Socorro e Verdade". Ou seja, há outras sutilezas envolvidas em questões como as citadas além da seca e dura aplicação da letra da lei.

Nossa legislação oferece à Loja todos os meios disponíveis para que problemas de inadimplência financeira, inassiduidade e outras posturas indesejáveis à Loja sejam saneados, mas há um passo muito importante e anterior a esta fase do processo de se eliminar um Irmão ou condená-lo sumariamente pelas opiniões e comentários, muitas das vezes tecidos na ausência daquele ou de forma genérica.

Há uma função de uma importância e nobreza ímpar. Uma função que deve, necessariamente, ser conferida a um Irmão experiente, pois é das funções mais delicadas da Loja. Falo do Irmão Hospitaleiro.

Este oficial da Loja é aquele que vai ao encontro do Irmão objeto de julgamento de seus pares. O Hospitaleiro, com tato, zelo e os mais puros gestos de acolhimento e fraternidade é que irá procurar aquele Irmão, ofertar apoio, ouvi-lo e, muitas vezes, desvelar caminhos possíveis e benéficos não só para aquele Irmão como para a Loja.

Por isso é muito, mas muito importante que este cargo seja prestigiado e ocupado por um Irmão experiente e com boas habilidades de relacionamento interpessoal e inteligência emocional.

Reflitamos, meus Irmãos! Quando apontamos um dedo para alguém, temos três voltados para nós. 

Procuremos deixar sempre aflorar o hospitaleiro que deve morar em nossos corações e conter o precipitado juiz (e por vezes carrasco) que se arvora em enumerar falhas, muitas vezes sem efetivamente colaborar para a lapidação das arestas.

Antes de julgar, ouça!

Antes de condenar, acolha!




FIAT LUX !!!!

 


Nesta minha caminhada que não é tão longa quanto à de tantos valorosos Irmãos (apenas 15 anos de Ordem), é a primeira vez que vejo tanta preocupação, manifesta em tantas Potências e Orientes diversos, com o problema SERÍSSIMO da Evasão em nossos quadros.

Se o problema já era sensível antes da pandemia global, com sua chegada, tornou-se uma fratura exposta, um elefante rosa sentado na sala que só não vê quem realmente está a preocupar-se somente com os torrões de açúcar em sua xícara de chá.

Mas estas manifestações aqui e acolá, ocorrendo com cada vez mais frequência, são para nós um motivo de alegria, de ESPERANÇA. Um sinal de que olhos estão se abrindo. Corações e mentes efetivamente preocupados com a sobrevivência de nossa Augusta Fraternidade estão vibrando em uníssono, entrando em ressonância e se reconhecendo mutuamente.

Olhamos uns para os outros e dizemos: "Ei, meu Irmão! Você está vendo onde podemos parar se nada fizermos?"

Ouvi de um Irmão uma frase que achei perfeita:


"Mudar é difícil, mas não mudar é fatal!"


É exatamente isso, meus queridos Irmãos! Mudar, sairmos de nossa zona de conforto, reavaliarmos nossa atuação enquanto instituição secular e cheia de realizações no passado, olharmos para nossa atuação no presente, tudo isso pode trazer desconforto para muitos. É difícil, mas é fundamental!

E aos que se desconfortam com esta análise, alegrem-se! Pois isto é um sinal de que ainda há tempo para vocês, digo, para nós. O que é entristecedor (e altamente preocupante) é perceber os que não sentem desconforto algum com o status quo.

Nossos iniciados PRECISAM ser melhor esclarecidos sobre o que encontrarão após a iniciação. É uma questão de simples franqueza! Mais que isso: de coragem! É a primeira demonstração de  honestidade para com o candidato a integrar nossas fileiras!

Ao padrinho cabe o dever de mostrar a vida maçônica como ela é! Chega deste discurso de que não se pode falar nada ao candidato antes de iniciar! Como assim?!!! É justamente o inverso!! Há que se esclarecer, de forma madura e verdadeira, que o caminho é árduo! Que exige sacrifício e convicção nos seus propósitos! Que a Iniciação é um renascer simbólico para uma nova postura de vida, para um novo olhar sobre o mundo e sobre seu papel nele.  

Fundamental alertar o candidato que a Maçonaria não é clube de benefícios mútuos. Deve ser, antes, uma congregação de homens que gozam (em tese) de confiança mutua e devem se ajudar naquilo que for justo e que não prejudique terceiros!

Imprescindível esclarecer o proposto que a Maçonaria não é entidade beneficente. Deve ser, antes, um espaço onde há oportunidade para ajudarmos, sim, aos necessitados, mas sem manutenção de dependência, sem dar apenas o peixe, mas providenciando o ensino da pesca. Colocar a mão no bolso e ajudar com metais é, sem dúvida, um ato nobre, mas a grandeza da Ordem não pode ser reduzida apenas à filantropia. Para isso existem outra valorosas e nobilíssimas instituições que têm como missão esta tarefa.

Importante alertá-lo de que o que ele encontrará, no caminho da Arte Real, são seres humanos reais e, como tal, falíveis. Que ele encontrará maus exemplos, decepções, incongruências, paradoxos, egos vitaminados de vaidade, comportamentos absurdos, mas encontrará também ombros amigos, braços acolhedores, mãos que ajudam a nos levantarmos e a aprendermos, exemplos a serem seguidos, companheirismo nos momentos de alegria e dor e, principalmente, encontrará ferramentas que o ajudarão a melhorar enquanto ser humano e a melhorar a sociedade na qual ele vive.

Mas isso é apenas se ele quiser, se tiver isso como propósito.

Sendo francos sobre o que ele irá encontrar o candidato será recebido em nosso seio mais fortalecido e preparado para o que o aguarda, ciente das batalhas que terá de enfrentar e suficientemente determinado a vencê-las. 

Assim evitaremos um sentimento que é a raiz da evasão maçônica:

a decepção.



Crédito da imagem: Photo by Ante Hamersmit on Unsplash


 

QUÃO BOM É...





Ontem, último dia do ano de 2021, estava eu tentando prolongar o meu limitado tempo neste plano, ou seja, praticando uma caminhada (rs) e me ocorreu, em meio às reflexões naturais de quem caminha, fazer um balanço do que a Maçonaria agregou à minha vida nestes 18 anos de estrada. 

De repente me dei conta de como o Mario profano era diferente do Mario de hoje! 

Quanta coisa aprendi e continuo aprendendo e tentando melhorar nestes curtos mas significativos anos!

Aprendi, por exemplo, o valor de saber falar de forma o mais correta e clara possível, respeitando a riqueza e beleza de nossa Língua Pátria, sem ser prolixo. Adequando os tipos de fala ao interlocutor. Aprendi isso entre Colunas!!! Observando, meus Irmãos! E quando digo "Aprendi", por favor, entendam! Não significa que dominei! Apenas que a importância desta capacidade brilhou aos meus olhos.

Aprendi (talvez um dos mais difíceis aprendizados) o valor de identificar o momento de calar, mesmo quando pensamos ter a razão a nosso favor. Digo "Pensamos" pois é só isso! Uma suposição. A razão só emerge após um positivo e fraterno processo dialético. E isto é algo que também  se vai lapidando ao longo do tempo, com a prática. Calçar o sapato do outro, olhar pelos olhos do outro é tarefa que penso ser impossível! Mas a simples boa vontade de tentar já é um enorme passo em direção à convivência fraternal.

Com o tempo (e não sem grande esforço) vamos ponderando e aprendendo a identificar os momentos nos quais o embate argumentativo é imprescindível e as situações em que recuar é a melhor postura. Sem menosprezar o interlocutor, mas há situações em que um bem maior é colocado em risco: a relação fraternal. Quantas famílias têm se desagregado por falta de capacidade dialética?! Quantas relações entre Irmãos têm se enfraquecido ou até mesmo rompido pela atmosfera polarizada e intolerante dos tempos atuais?!

Então, o aprendizado de saber calar é ainda mais importante e prioritário que o de saber falar. Quando muito se divulgam cursos de Oratória, nossa vida tem exigido muito a capacidade "Escutatória".

Por óbvio que o poder de comunicar também está (e sempre esteve) em alta. Se o poeta diz que "A Vida é a Arte do Encontro", que ferramenta (das muitas que nos ensinam a retirar do avental) mais fundamental não é a linguagem e o seu domínio? Seja em uma comunicação, a priori,  unidirecional como esta que vos oferto, seja em uma interação sobre qualquer tema. 

Outra habilidade que a Prática Maçônica tem me ajudado a aperfeiçoar é a Etiqueta Maçônica que, analisando etimologicamente, seria a "Pequena Ética". No curso das relações com nossos Irmãos fui constatando como faz diferença, como é bom termos e recebermos pequenos gestos de zelo e atenção. Um contado que se retorna rapidamente, uma ajuda que se presta com agilidade e dedicação, uma ligação para saber se o Irmão está bem, ou seja, pequenos gestos que fazem muita diferença.

Etiqueta Maçônica vai muito além do que as regras ritualísticas de tratamento. Ela transcende os Manuais Ritualísticos. Ela mora no coração, na preocupação em fazer o Irmão se sentir bem ao fazer contato conosco.

Acho que as relações pessoais no mundo profano às vezes mostram-se muito hostis. Vivemos com os nervos à flor da pele e, pelas tensões do dia a dia, às vezes não temos a necessária e desejável paciência e cuidado no trato pessoal. Então que sentimento bom é receber uma atenção especial de um Irmão! O acolhimento de nossa Universal Família Maçônica é um alento para o coração, um jato de energia para a alma!

Então, fazendo esta autoanálise, percebi como estes gestos de carinho fraternal traduzem, na verdade, respeito ao próximo e este próximo ganha um brilho ainda mais especial quando trata-se de um Irmão, um parceiro na caminhada por esta maravilhosa estrada que é a Arte Real.

Na verdade uma Loja Maçônica é, efetiva ou potencialmente, uma maravilhosa Escola! Uma escola de Líderes! Percebam, meus Irmãos, na diversidade de cargos e dinâmica de Loja, as inúmeras possibilidades de nos aprimorarmos no campo da administração, comunicação, relacionamento interpessoal, exercício da tolerância e humildade, habilidade na delegação de tarefas ou trabalho colaborativo, sensibilidade no trato de situações delicadas etc.

Como não visualizar estas potencialidades à nossa disposição?! Isso sem falar na capacidade de adaptação às mudanças que o meio naturalmente nos apresenta. 

Quantos Irmãos, por exemplo, que pouca familiaridade tinham com a informática ou ferramentas de comunicação, se descobriram usufruindo dos recursos que as Palestras Online ofereceram, por força do isolamento ao qual nos vimos obrigados nos últimos dois anos?!

E não para por aí! A necessidade de nossa Ordem se reinventar está, cada vez mais, como que em um processo de evolução natural, nos trazendo novas capacidades e habilidades.

Mas, voltando ao balanço inicial que me propus a fazer, acho que, em resumo, o que mais aprendi a valorizar nestes anos de Maçonaria foi o bom e salutar convívio, os Laços de Fraternidade e tudo que concorre para o seu fortalecimento. O valor está no Irmão.

Nenhum gesto é insignificante, nenhum tempo é mal empregado quando o investimos no cuidado, no zelo para com nossos Irmãos. Seguimos aprendendo sempre e tentado melhorar cada vez mais esta capacidade. Talvez nos esforçando para aplicar efetivamente, um dos grandes ensinamentos do Mestre Nazareno:


"Amai ao próximo como a si mesmo"







Não perca tempo com Maçonaria!

 






Calma, meus Irmãos! Vamos com calma!
Preciso, certamente, explicar o título deste artigo e é o que faço doravante.

Mas antes, voltemos um pouco no tempo. 

Convido-o a retroceder àquele primeiro dia na Ordem, àquele tão singular e especial recinto e a um objeto em particular: a Ampulheta.

Este símbolo universal do curso inexorável e implacável do tempo, nos lembra, desde aquele tão especial e primeiro dia de caminhada na Arte Real, que recebemos uma quantia limitada de existência sobre este plano terrestre e que, por mais que desejemos, esta quantia é certa e improrrogável. Só não temos consciência do montante de segundos que nos foi confiado. Esta informação foge ao nosso domínio cognitivo.

Mas nossa Augusta Ordem, ainda mais preocupada com seus membros, nos confere outra ferramenta simbólica justamente para bem dosarmos a utilização destes "grãos de tempo", a Régua de 24 Polegadas que, se usada com sabedoria, nos trará contentamento em todas as áreas de nossa vida, não só Maçônica, mas principalmente Profana.

No entanto a reflexão que suscitamos com a frase título desta peça é justamente o convite a um autoexame de consciência: Por qual motivo eu sou maçom atualmente? Será que estou empregando de forma Justa e Perfeita o meu tempo de vida no lapidar da Pedra Bruta? Vale realmente a pena abrir mão do convívio familiar, do aconchego do lar, para colocar um terno, gravata e estar aqui? Se o ser humano é movido por propósitos e por uma eterna avaliação da relação custo/benefício entre escolhas e consequências então qual vantagem eu levo nesta atividade? 

Saliente-se que o Trabalho Maçônico é muito mais que um voluntariado. Aqui nós pagamos para nos melhorarmos e tornarmos feliz a humanidade. Mais que regras de um serviço voluntário, entre o Esquadro e o Compasso, temos compromissos fundamentados na honra. Nos submetemos a compromissos por vezes severos e que nos exigem múltiplos sacrifícios pessoais, familiares e outros. Tudo isso em prol de um ideal, de um PROPÓSITO.

É será mesmo isso que estou fazendo? Tenho um real e definido propósito em ser maçom? E (muito importante) estou trabalhando em direção a este propósito? Ou estou habituado e confortável com a rotina semanal e o bem estar que me faz estar entre os Irmãos? 

A Mitologia Grega, mais especificamente a Odisseia (Homérica), nos traz um interessante relato sobre a Ilha dos Lotófagos, um lugar no qual seus habitantes, inebriados pelos efeitos encantados e prazerosos provocados pelo consumo do Lótus, simplesmente não se davam conta da passagem do tempo e o que, para eles, eram dias, na verdade consumia meses ou anos.

A prática maçônica não refletida, planejada e constantemente avaliada, meus Irmãos, nos converte também em lotófagos e nos submerge em uma rotina de iniciações, elevações, exaltações e tantas outras rotinas que acabam por consumir todo o ano maçônico. Quando nos damos conta, já estamos nas novas eleições e tudo recomeça. Esta rotina não necessariamente é negativa. Faz parte do trabalho, mas um "algo mais" se faz necessário para que consigamos ver prosperar o propósito de tornar feliz a humanidade. 

Mas voltemos ao foco desta peça que não é o planejamento administrativo. Este tema (não menos importante) fica para outro momento.

O tema para o qual peço a atenção dos queridos Irmãos é a importância da contínua reflexão sobre o bom uso de nosso tempo pessoal. Não perca tempo com Maçonaria! Ela não foi criada para fazê-lo assistir, estático, o giro dos ponteiros do seu relógio. 

Na verdade a Maçonaria é uma riquíssima oportunidade, uma dádiva, uma bênção ou como queiram chamar, mas os que aqui estão têm a chance de operar verdadeira transmutação. Transformando o "homem de chumbo" em "homem de ouro", visitando o interior da terra e retificando encontrar a pedra filosofal!  

Parafraseando a essência de Mario Quintana poderia formular a seguinte máxima: 

"A Maçonaria não muda o mundo. 
Ela muda o homem e o homem é que muda o mundo".


Meu Irmão, se buscas na Ordem o calor da Fraternidade, o abraço amigo, a companhia agradável e revigorante de seus Irmãos; se isso lhe confere a força necessária para enfrentar as agruras da vida com coragem, resiliência e serenidade, SIM!, você não está perdendo tempo!

Se buscas fazer o bem sem olhar a quem, contribuir para minorar a dor do outro, sentir-se parte na luta pela erradicação do sofrimento alheio nas diversas formas que este se apresenta, SIM!, você não está perdendo tempo!

Se buscas cultura, conhecimento e, generosamente, tencionas compartilhar estes bens intelectuais com seus Irmãos a fim de que eles se multipliquem e frutifiquem, SIM!, você não está perdendo tempo!

Se pretendes trazer melhorias ao meio social em que vives, amparado na ética e na vontade de ver crescer a sua "Polis", se buscas aprimorar-se como Líder-Servidor e Construtor Social , SIM! você não está perdendo tempo!

Se sua intenção é amplificar sua capacidade de relacionamento interpessoal, lapidando-se como favor de concórdia e harmonia entre os seus, se queres aprender a tratar desde o mais humilde até o mais nobre com a mesma bondade e dignidade, SIM!, você não está perdendo tempo!

E não pretendemos de modo algum sermos exaustivos nestes exemplos. Não conseguiríamos tamanha é a riqueza de possibilidade e caminhos a trilhar em nossa Maçonaria (basta motivação e boa vontade).

Seja qual for o seu propósito, querido Irmão, mantenha a sua chama acesa! Siga em frente, mesmo com quedas e tropeços. Há braços suficientes nesta Ordem para o amparar.

Porém, se investigas a sua própria alma e não encontras uma motivação para a nobre prática da Arte real talvez esteja na hora de conversar, meu Irmão! Hora de trocar ideias com seu Padrinho ou com qualquer Irmão que te seja mais próximo. Talvez ainda haja uma solução.

Infelizmente muitos valorosos Irmãos abandonam as nossas fileiras por simples falta de conhecimento das possibilidades de trabalho na Ordem. É triste a constatação de que, por falta de comunicação em algumas Oficinas, muitos Mestres desconhecem importantes iniciativas que a Maçonaria promove ou apoia e, se não conhecem, como partilhar ou auxiliar outros Irmãos em momentos de dúvida ou incerteza sobre seus objetivos?

Mas não podemos também retirar do próprio Irmão desmotivado a responsabilidade em pesquisar, buscar e procurar saber das ações e iniciativas Maçônicas que se harmonizem com seu perfil ou propósito. Somos todos homens, líderes e formadores de opinião. Não podemos esperar que alguém nos pegue sempre pela mão. A formação do Maçom é um processo cuja responsabilidade é compartilhada entre o neófito e sua Oficina.

A felicidade é um dos objetivos da prática maçônica. Urge que, neste caminho que nos convidaram a trilhar, os momentos felizes e agradáveis sejam sempre mais numerosos que os infelizes ou aborrecidos.
Se a equação está invertida é preciso refletir com urgência.

Não perca tempo!

Cada segundo que deixamos de empregar com sabedoria, cada abraço não dado nos que nos são caros, cada momento empregado com real significado para nós, pode fazer muita falta ao nos depararmos com as portas do Oriente Eterno.

Finalizo com suas passagens que considero adequadas às nossas considerações: uma pagã e outra Cristã.

"Uma vida não refletida não vale a pena ser vivida" (Sócrates)

"Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção de sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer a liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia que o faça com alegria."  (Romanos 12:6-8)









 

ONDE NASCE A MOTIVAÇÃO ?

 

Quando iniciamos nossa caminhada na Arte Real, nos deparamos com uma questão que será o pilar de sustentação de todo o percurso até que as portas do Oriente Eterno se abram para nós, qual seja: Que vindes fazer aqui?

Importante salientar que, se temos a oportunidade de nos questionarmos desta forma, é um sinal de que estamos em um estágio já mais privilegiado da sociedade.

Segundo Maslow e sua famosa pirâmide (Figura 01), todos temos uma hierarquia de necessidades a atender. Primeiramente as necessidades mais imediatas são as fisiológicas por questões óbvias. São aquelas que, se não atendidas, nos levam rapidamente a óbito. Dentre elas estão a alimentação.

Atendidas estas estamos em condições de buscar segurança para nós e para aqueles que nos são caros. Isto implica em moradia digna, por exemplo.


Figura 01 – Pirâmide de Maslow

A partir do momento em que temos onde comer e morar com segurança, vem-nos a necessidade de pertencimento e aí está o patamar da “Afiliação”. O Homem, enquanto  animal político e social, sente a necessidade de integrar um grupo no qual se sinta aceito e onde possa interagir. Daí vem a busca por grupos de estudo, religiões, partidos políticos, associações etc.

Integrando uma coletividade e como parte desta aceitação ele precisa ser bem-quisto. A sensação de que se é bem-vindo por boa parte ou a maioria de um grupo é, sem dúvida, agradável. Por vezes um indivíduo conquista uma posição de liderança ou destaque em um grupo, mas não necessariamente a estima deste grupo. Há um algo a mais, uma espécie de tempero das relações e que nos faz sentir o verdadeiro significado da expressão “Calor Humano”.

Particularmente aposto em dois elementos principais: empatia e altruísmo.

A empatia aproxima os corações, ombreia os sentimentos, nos faz chegar o mais próximo possível de “calçar o sapato do outro”. É um irmanar-se nas alegrias e tristezas, uma fraternal solidariedade e boa vontade na tentativa de olhar o mundo por outros olhos e compreender visões deste mundo e seus sentimentos intrínsecos.

O altruísmo nos move a trabalharmos pelo bem do outro e da nossa coletividade. É aquela sensação boa e aconchegante que sentimos quando ajudamos, de alguma forma, direta ou indiretamente, uma pessoa ou grupo de pessoas.

No topo desta pirâmide que, lembramos, é apenas um modelo não representando a verdade absoluta, está a autorrealização que, sem dúvida, é um conceito altamente variável entre as pessoas, mas que parece envolver a descoberta de um sentido para o existir, ou seja, a motivação pessoal para a vida, aquela chama que nos move ou, em simbologia que nos é mais familiar, aquela estrela que arde e brilha.

Esta busca, genuinamente, não é da Verdade, pois, é altamente questionável se há uma Verdade última. Esta busca é de tranquilidade de alma, serenidade no caminhar pela vida. É a busca de eliminarmos as angústias e dúvidas que, eventualmente, podem afligir nossas mentes naquelas tardes quentes e chuvosas de domingo ou em qualquer momento em que nos perguntamos: “Que vindes fazer aqui?”.

Isto posto fica claro e justificado que, ao nos fazermos este questionamento, já escalamos vários degraus da citada pirâmide. Claro também deve ser que seus patamares não são estanques na vida real. Eles se mesclam e interpenetram e cada um sabe onde está nesta classificação apontada por esta abstração do pensamento.

Imaginem um pai de família, com um envelope de currículos embaixo do braço, percorrendo, angustiado, inúmeras empresas, em busca de seu sustento e lembrando de sua família para a qual precisa prover sustento. Imagine se este pai irá, geralmente, fazer-se este tipo de questionamento. Ou se seu questionamento e todas as suas energias e pensamentos não estarão voltados para a solução de seus problemas fundamentais, postados na base da pirâmide.

Então, meus Irmãos, para que o Trabalho Maçônico se realize, para que tenhamos realmente motivação e orgulho de fazermos parte desta Fraternidade; para que possamos visualizar sentido na prática maçônica; para que a sociedade sinta os efeitos deste trabalho e, consequentemente, nós tenhamos também o sentimento acolhedor do dever cumprido; para que nossa Loja seja uma Escola e Eternos e Verdadeiros Aprendizes e, ao mesmo tempo, uma forja de Construtores Sociais, tomamos a liberdade e a ousadia de convida-los a esta reflexão: Onde nasce a sua motivação? Onde ela se realimenta? Como manter a chama acesa e fulgurante?

Permitam-me compartilhar com os Irmãos a reflexão que me vem sobre estas fundamentais questões.

Primeiramente precisamos mirar o espelho do autoconhecimento e, com sinceridade profunda, nos perguntarmos: o que vim buscar na Maçonaria quando aqui iniciei? Encontrei o que procurava? Tive minhas expectativas atendidas? Se não, o que falta? Falta em mim? Ou falta fora de mim?

Posso, a partir de agora, voltar a buscar meus objetivos com energia? A minha Loja é um ambiente propício para esta busca? Se não, pode vir a ser? No que meus Irmãos podem me ajudar nesta busca e nesta reconciliação com minhas convicções e anseios? No que eu posso ajudá-los também?

Talvez este seja o primeiro passo. Conversa franca, aberta, despida de vaidades ou temores. Para sermos confiáveis, precisamos confiar. Vale a pena confiar no próximo. Certamente teremos uma ou outra decepção, mas a confiança chama confiança e, sem dúvida, o número de vezes que o investimento no outro trará positividade é muito grande.

Se conseguimos uma necessária paz de espírito e mantemos nossa estrela brilhante, isto surtirá efeitos, mais cedo ou mais tarde, em nossa Oficina, a Boa Vontade é contagiante e, pelo exemplo e perseverança, corações e mentes irão se aproximar, verdadeiramente se irmanar e a Loja começa a ganhar uma identidade coletiva que lhe permitirá também, em conjunto, fazer a mesma reflexão: Que vim fazer aqui?

A partir daí, ou seja, quando a Loja, coletivamente, visualiza um Objetivo claro, o seu papel na sociedade que se insere também se clarifica e as energias começam a serem canalizadas para um mesmo horizonte. O ideal Maçônico de “Tornar Feliz a Humanidade” começa a ficar nítido nas mentes dos Irmãos e isto gera mais e mais energia e sentido para a Prática Maçônica.

Por fim, uma sociedade melhor fará com que o Irmão tenha mais e mais bem-estar pessoal e o círculo virtuoso se fecha e se realimenta.

Juntos somos mais.

Que o Grande Arquiteto do Universo a todos ilumine, meus Irmãos.

RITO SÃO JOÃO - Da Hungria para o Brasil

 


O trabalho dos Irmãos Eugene Laxa e Will Read, publicado em 1978, no Volume 90 da Ars Quatuor Coronatorum, sob o título “THE DRASKOVIC OBSERVANCE – Eighteenth Century Freemasonry in Croatia”, nos apresenta um rico e esclarecedor panorama sobre as circunstâncias que levaram à criação do Rito São João na Hungria. Nele os autores ilustram a sua ancestralidade fundamentada na Observância criada pelo Conde, Militar e Maçom Ivan Draskovic.

A própria Grande Loja Simbólica da Hungria afirma, em seu sitio na Internet, que a Observância Draskovic foi a única obediência Maçônica genuinamente Húngara.

No entanto, pelo banimento da Ordem dos Territórios Húngaros por sete décadas e pela perseguição da Maçonaria por regimes totalitários que se sucederam na região, muitos documentos se perderam, foram destruídos ou ainda não foram localizados. Isto dificulta o entendimento de como se deu a transição da Observância Draskovic para o Rito São João.

A Primeira Loja a praticar este Rito no Brasil foi a Loja Resurrectio – nº 99, fundada em 1956, pertencente à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP) e é sobre esta saga de coragem e amor pela prática da Arte Real que tecemos estas considerações. 

 

UMA HISTÓRIA DE RENASCIMENTO

 

O ano de 1956 foi especialmente turbulento para a população Húngara. Eclodia a revolta contra a ditadura do Governo Soviético que ocupava o país desde o final da 2ª Guerra Mundial.

A União Soviética reprimiu esta revolução com mão de ferro, resultando na morte de mais de 2.500 soldados Húngaros, 700 soldados soviéticos e na fuga de centenas de milhares de cidadãos húngaros, abandonando suas histórias e seus bens na busca de sobrevivência em outros recantos do mundo.

Muitos deles vieram para o Brasil onde encontraram uma nação em franco crescimento econômico, industrial e repleta de oportunidades para reconstrução de suas vidas destroçadas pela violência da guerra.

Já no início da década de 1950 cidadãos de origem Húngara (dentre eles vários Maçons) se reuniam em São Paulo, no chamado Círculo Húngaro, para estudos e debates dos temas relevantes da sociedade.

Eis que surge, em um jornal de língua Alemã, o seguinte anúncio:

“Homens livres e de bons costumes querem entrar em contato com outros homens livres e de bons costumes”

Um dos membros do Círculo Húngaro atendeu ao chamado e, destes contatos, nasceu a Loja Humanitas, em 1952, sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil (GOB), porém funcionando sob o Rito Schroder, em língua Alemã.

 

Figura – Recorte de notícia do Jornal O Estado de São Paulo - 04/11/1956

 

Com a chegada dos refugiados, em 1956, e natural aumento da colônia Húngara em São Paulo, surgiu a vontade de se fundar uma Loja de Húngaros, mas o pedido foi negado pelo GOB.

Os Irmãos então procuraram a GLESP, foram acolhidos pelo então Grão Mestre Francisco Rorato e, no dia 06 de dezembro daquele mesmo ano, oito Irmãos fundaram a Loja Ressurectio – nº 99, finalmente trabalhando sob o Rito São João.

Os Rituais chegaram escondidos ao Brasil, pelos Irmãos que haviam sido iniciados na Hungria, em forma de filmes e foram rodados em mimeógrafos. 

Até 1983, só se iniciava nesta Loja quem falasse Húngaro, pois os rituais estavam todos escritos naquele idioma.

Com o natural envelhecimento dos membros da Loja, ficou clara a necessidade de se ampliar o escopo de potenciais iniciados e os rituais foram traduzidos para o Português, facilitando assim a recepção de candidatos brasileiros.

Os Rituais originais estão atualmente expostos no Museu da GLESP.

Por mais de 50 anos esta Loja foi a única a praticar o Rito e apenas em 2009 a segunda Loja foi fundada no Brasil.

Atualmente a GLESP possui cerca de 890 Lojas e destas, apenas 09 lojas simbólicas praticam o Rito São João e também a Loja de Pesquisa Quatuor Coronati São Paulo 333, sendo a única Obediência Maçônica Brasileira a praticar este Rito.



 Figura 2 - Estandarte da Loja Resurrectio - nº 99. Em volta pode-se ver o nome das Lojas de                     Origem dos Irmãos Fundadores.

 

SOBRE O RITO

 

O Rito São João conserva a sua simplicidade e muitas características de suas origens militares e iluministas do século XVIII.

Esta simplicidade e objetividade original do Rito pode ser facilmente constatada pelo exame do trecho final do citado trabalho dos Irmãos Laxa e Read, onde eles resgatam o próprio texto do Ritual praticado pelo Irmão Draskovic.

A decoração de uma Loja de São João é bastante simples e, a exemplo do Rito Schroder, toda a simbologia dos trabalhos encontra-se sintetizada no Tapete Ritualístico, também chamado de Tapis, ladeado por três castiçais altos.

É simples entendermos a função originária deste tapete.

Muitas Lojas fundadas pelo Conde Draskovic funcionavam nas fronteiras pois seus integrantes eram militares que, não raro, estavam em conflito e precisavam se deslocar rapidamente. 

Isto posto, para “desmontar” uma Loja, praticamente era necessário apenas recolher o Tapete e alguns poucos objetos ritualísticos.

Tanto Draskovic como Schroeder eram “dissidentes” da Estrita Observância Templária e formularam seus próprios Rituais e, por isso, costumamos dizer que os Ritos São João e Schroeder são Primos-Irmãos, pois têm uma raiz comum e muitas semelhanças na dinâmica dos trabalhos.

A influência Iluminista também é marcante pois o Rito São João possui uma ritualística mais simples e objetiva, sem influências místicas ou esotéricas e focado no estudo no crescimento intelectual de seus membros.

Esta liturgia mais concisa permite um maior aproveitamento do tempo para discussões sobre Cultura Geral e Maçônica. Salvo raríssimas exceções, em todas as reuniões há apresentação de trabalhos e estudos, seguidos de edificantes debates sobre temas voltados para o aperfeiçoamento do homem e da sociedade.

Isto faz parte do conceito de Formação Permanente do Maçom e da premissa de que o homem só pode evoluir pelo exercício de suas capacidades intelectuais garantindo a dignidade da existência humana na vida terrestre.

Parafraseando Kant: É o homem libertando-se de sua menoridade intelectual e ousando buscar o conhecimento por seus próprios esforços, sem depender de forças metafísicas ou de um determinismo divino.

 

O Irmão Aleksandar Jovanovic cita a socióloga britânica Margaret Jacob, numa de suas obras sobre o Iluminismo:

“Durante o século 18, as Lojas maçônicas conseguiram transformar os ideais filosóficos do Iluminismo em comportamento individual. A busca da perfeição humana para os maçons transformou-se em racionalidade, tolerância, sociabilidade e comportamento ético. ”

 

Segundo o documento Systema Constitutionis Latomiœ Libertatis sub corona Hungariœ, in Provinciam redactœ (Conjunto das Constituições dos Pedreiros Livres, redigido na província, sob a proteção da coroa da Hungria), escrito por Draskovic em 1775 e só recentemente descoberto, nossa Ordem teria originalmente sete graus.

No entanto, quando adotado oficialmente pela Grande loja Simbólica da Hungria, ele já constava apenas com os três graus simbólicos, não reconhecendo os altos graus. Mais uma transição que ainda está por ser explicada.

Esta é outra similaridade com o Rito Schroder, pois, alinhados com o pensamento dos fundadores da Primeira Grande Loja (também chamados de Modernos), defendiam que a profusão de graus posteriores ao de Mestre não integrava a Maçonaria Primitiva e Original prestando-se apenas a conferir nobreza e atrair as classes mais abastadas, fascinadas pela perspectiva de uma ligação com as Ordens de Cavalaria e seus títulos.

Sua simplicidade originária reflete-se também no fato de não possuírem, tradicionalmente, a figura destacada do Mestre Instalado. No entanto, por força de adequação ao Regimento Interno da GLESP, adaptações foram necessárias a fim de que os Veneráveis, ao serem eleitos, pudessem passar pela cerimônia da Instalação.

No Rito Escocês Antigo e Aceito os Mestres Instalados sentam-se no chamado “Oriente”, local da Loja, próximo ao trono do Venerável Mestre e separado do "Ocidente" por uma pequena balaustrada.

Pois bem. Na configuração de uma Loja do Rito São João não existe tal balaustrada e, por consequência, não existe Oriente fisicamente delimitado, o que é mais um argumento favorável à simplicidade e humildade fomentada pela prática deste Rito e a valorização da igualdade fraternal em Loja.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A História do Rito São João e sua acolhida pelos Brasileiros são demonstrações do poder da perseverança sobre as adversidades. Um testemunho vivo do genuíno Espírito Fraternal Maçônico e a sua vontade férrea de fazer valer a liberdade humana.

Esta singela peça de arquitetura tem o objetivo de render homenagem a todos os Irmãos que, desde a luta pela vida, no teatro beligerante da revolução Húngara até o brilhante renascimento do Rito em solo Paulista, deixaram suas marcas na História como verdadeiros defensores das tradições, da liberdade e das Luzes da Razão em nosso solo pátrio.

Não existe Rito melhor ou pior. Existe o rito mais ou menos harmônico com as convicções e perfis dos Maçons. A Maçonaria é generosa nos múltiplos caminhos que oferece aos que a procuram seja buscando uma prática mais metafísica, seja sob um viés mais racionalista, pois a base, o alicerce é a melhora do homem para melhora da humanidade.

Definitivamente o Rito São João é adequado aos que desejam praticar uma Maçonaria centrada no Potencial Humano de aprimorar sua moral, sua cultura, sua atuação social e de buscarem a Verdade por seus próprios méritos, com o natural respeito à força maior Criadora deste universo, mas libertos de quaisquer dogmas ou afirmações que não sejam sedimentadas na liberdade de pensamento e questionamento, ingredientes fundamentais, principalmente, para a prática do trabalho maçônico sob o aspecto investigativo.

 

 

 

 

Bibliografia Consultada:

DENES , P., & JOVANOVIC, A. (2006). CONSTÂNCIA NO TRABALHO – Edição Comemorativa dos 50 Anos da ARLS Resurrectio – nº 99. SÃO PAULO: GLESP

GOULD. R.F. – HISTÓRIA CONCISA DA MAÇONARIA – VOLUME III. Tradução José Filardo.

GRANDE LOJA SIMBÓLICA DA HUNGRIA. OS PRIMEIROS PASSOS NA HISTÓRIA DA MAÇONARIA MODERNA. https://www.szabadkomuves.hu/a-modern-szabadkomuvesseg-tortenetenek-elso-lepcsoi/  Consulta realizada em 13/09/2020.

LAXA,E., & READ,W. (1978). THE DRASKOVIC OBSERVANCE – Eighteenth Century Freemasonry in Croatia. ARS QUATUOR CORONATORUM – VOLUME 90.

GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO (2014). RITO SÃO JOÃO – Ritual do Primeiro Grau (Aprendiz Maçom) e Rituais Especiais. SÃO PAULO: GLESP

Uma Iniciação Mitológica e Filosófica


 

Caríssimos Irmãos

Que maravilhosa Ordem é esta que nos permite acessar as mais diversas áreas do conhecimento?!!! Há caminhos para todos os gostos!!! 

É um desses caminhos sobre o qual gostaria de comentar: A Mitologia e sua prima-irmã, a Filosofia.

Em pesquisa geral e especialmente na Pesquisa Maçônica há uma frase que costumo repetir à exaustão:

"Puxamos uma pena... e vem uma galinha!"

Bom! Sobre a Mitologia trilhei um caminho insólito. Tudo começou com o interesse de minha esposa pelas obras de Madame Blavatsky e a Teosofia. Este termo, Teosofia, me chamou a atenção e descobri que era um termo de origem neoplatônica, ou seja, um conjunto de doutrinas de inspiração platônica.



Sócrates - 469 a 399 a.C.


Pois bem! Chegamos,então, ao conhecido Platão, discípulo de Sócrates, considerado o Pai da Filosofia e que, dele mesmo, nada deixou de escrito. Tudo o que ensinou foi registrado por seu pupilo e admirador que, na verdade, não se chamava Platão e sim Arístocles.
Este apelido ele ganhou por ser um atleta e de forte compleição física. 

Platon significa ombros largos, omoplatas largas, uma marcante característica deste pensador grego.

O grande Sócrates, filho de um pedreiro e de uma parteira, se utilizava de uma técnica através da qual ele conduzia seu interlocutor por caminhos intrigantes da argumentação. Esta técnica chamava-se maiêutica e, através dela, Sócrates, em um tributo ao ofício de sua mãe, fazia "parir" as verdades.

Eis que me ocorre a seguinte questão: Qual teria sido a substância a partir da qual Sócrates desenvolveu seu conhecimento? Quais histórias teria o menino Sócrates ouvido de seus ancestrais? Que fonte cultural teria alimentado aquela mente naturalmente iluminada?

Estas questões me levaram a uma obra maravilhosa chamada "A Cidade Antiga", de um autor com o estranho nome de Fustel de Coulanges. Nesta obra, meus Irmãos e amigos, somos levados a um passeio pelos costumes e religiosidade do povo grego arcaico, aqueles que habitaram e povoaram as ilhas gregas 1000 anos antes de Sócrates e cuja cultura certamente influenciou as histórias fantásticas de Homero e Hesíodo.

E como falar em Homero sem mencionar uma de suas maiores obras, a Odisseia? Sobre esta fantástica obra, tive a felicidade de encontrar uma edição traduzida por um português especialista em Grego. Trata-se da obra "A Odisseia de Homero - Adaptada para Jovens", por Frederico Lourenço, onde temos acesso em uma prosa de grande fluidez e leitura fácil ao invés do texto original em versos e bastante indigesto a nós mortais.





O livro narra as aventuras e desventuras de Odisseu que, após lutar na Guerra de Tróia, tenta voltar ao seu lar em Ítaca, mas encontra inúmeros obstáculos pelo caminho: criaturas míticas, fúria de deuses etc.Uma leitura imperdível.

Por sinal, pouco antes desta postagem, encontrei outra obra do tradutor Frederico Lourenço: trata-se da "Ilíada de Homero - Adaptada para Jovens". Pela qualidade da primeira não hesitei em encomendá-la. A Ilíada narra o penúltimo ano da Guerra de Tróia e seria, cronologicamente falando, anterior à Odisseia.




Deixando um pouco esta viagem em direção ao passado me senti interessado em voltar ao mundo Platônico e, mais uma vez fui brindado com a descoberta de um fantástico canal no Youtube, a Escola de Filosofia, onde o Professor Leonardo Zucarato Ferreira verdadeiramente e brilhantemente disseca obras clássicas do conhecimento humano e a partir daí foi ladeira abaixo. 

As aulas sobre Platão, Nietzsche, Kant e tantos outros que me direcionaram para outra grande obra. Um best seller: Aprender a Viver, do Luc Ferry. Um verdadeiro passeio pela Filosofia em uma linguagem supertranquila. Uma deliciosa leitura.



E qual não foi minha surpresa ao saber que este grande autor havia publicado uma sequência de seu livro dedicada exclusivamente à Mitologia?

A Sabedoria dos Mitos Gregos: Aprender a Viver II me absorveu numa leitura frenética da primeira à última página. Esta obra me deu a certeza de que tanto a Filosofia quanto a Mitologia podem estar presentes em nossas vidas muito mais do que imaginamos.

A vida como ela é, o mundo real está mais do que representado nos símbolos mitológicos. Nossa existência é uma luta heroica contra a Hybris que nada mais é do que o desequilíbrio do cosmos, o aumento da Entropia, a tendência ao caos de todos os sistemas universais. É tudo que vai de encontro à Ordem natural das coisas.

E para reduzirmos a Entropia e restaurarmos a Ordem precisamos dispender energia. Já abordamos este tema no artigo "A Física Maçônica".

Ao viajarmos através de outras Mitologias (Egípcia, Nórdica, Persa, Cristã etc) constatamos que os arquétipos da humanidade tramam um grande tecido que cobre uma Verdade única, mas ela, a Verdade quer se mostrar e aparece aqui e ali, caprichosamente se esquivando às nossas buscas.

Pois bem, meus queridos Irmãos e amigos, eu vos convido a mergulhar neste universo tão mágico quanto real, tão antigo e atual que é a Mitologia e deixo para vossa apreciação dois frutos de minha lavra mas em formato audiovisual. São singelas abordagens sobre a origem dos Deuses sob duas visões diferentes, mas conexas: a Egípcia e a Grega.

Estão bastante longe de representarem um estudo profundo e destinam-se mais a fomentar o interesse dos Irmãos em visitarem o interior de suas almas e, retificando-se, buscarem suas pedras filosofais.

Um Tríplice e Fraternal Abraço













https://youtu.be/FY06rdon_vs
















https://youtu.be/pTol9gzS1TY

























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Mario Vasconcelos

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Ouse buscar o conhecimento pelos seus próprios meios. Duvide. Questione sempre. Você será o único a desfrutar (ou sofrer) quando descobrir sua própria verdade.